Garantir que ao menos 90% das crianças brasileiras cheguem aos 10 anos com o domínio básico em leitura pode trazer efeitos expressivos ao crescimento econômico do Brasil. A alfabetização na idade adequada pode elevar o PIB per capita do país em 29,3% até 2050, segundo estimativa do Instituto de Evidência Educativa.
O instituto é uma organização internacional sem fins lucrativos que produz e analisa evidências educacionais nos países da América Latina. É apoiado por outras fundações da área, como o Instituto Natura.
A simulação calcula que o impacto econômico de alcançar esse patamar de alfabetização seria de US$ 8,34 trilhões (R$ 45,5 trilhões) adicionais ao produto econômico do Brasil acumulado entre 2031 e 2050.
O estudo divulgado na noite desta quarta-feira (4) parte de uma projeção feita pela What Works Hub for Global Education, uma parceria internacional que pesquisa a implementação de políticas educacionais em países de baixa e média renda. A parceria é liderada pela escola de políticas públicas da Universidade de Oxford e financiada por órgãos como o Banco Mundial, Unicef e a Fundação Bill e Melinda Gates.
Evidências científicas há muitos anos apontam que aprender a ler e escrever nos primeiros anos de escolaridade constitui base fundamental para o restante da trajetória escolar e a ampliação de oportunidades de emprego e ganho salarial ao longo da vida.
"Garantir aprendizagens fundamentais não é apenas um objetivo educacional: é também uma prioridade para o desenvolvimento econômico e social", diz o estudo.
Por isso, os pesquisadores decidiram avaliar o impacto econômico caso os países da América Latina e Caribe consigam superar a dificuldade que enfrentam em relação à alfabetização.
O ponto de partida é construído a partir do indicador de pobreza de aprendizagem do Banco Mundial e da Unesco, que combina informações sobre a proficiência em leitura das crianças escolarizadas e daquelas que estão fora da escola. Segundo esse indicador de 2022, apenas 46,7% das crianças de 10 anos da América Latina e Caribe atingem o nível mínimo de proficiência em leitura.
Isso representa uma distância de 43,3 pontos percentuais em relação a um cenário considerado de universalidade (90%) de proficiência mínima, reconhecendo que mesmo em sistemas educacionais de alta capacidade, uma parcela das crianças pode não alcançar esse patamar.
As simulações então comparam dois cenários: um de referência, no qual o país mantém inalterado o nível atual de aprendizagem; e outro, no qual se supõe que o país consiga alcançar 90% das crianças de 10 anos no nível mínimo.
O indicador aponta que o Brasil tinha 53,1% das crianças de 10 anos no nível mínimo de proficiência. Ou seja, mesmo acima da média regional, o país está distante do patamar de universalidade.
Com base em evidências que relacionam melhores resultados de aprendizagem fundamental a menor probabilidade de abandono escolar, o modelo supõe uma redução de 40% na probabilidade de abandono ou atraso escolar durante o ensino fundamental (do 1º ao 9º ano) para cada desvio-padrão adicional nos resultados de aprendizagem -por exemplo, se o risco inicial de abandono ou atraso em determinado país fosse de 10%, uma redução relativa de 40% o levaria a 6%- e de 25% na probabilidade de abandono na transição para o ensino médio.
Para o Brasil, essa simulação aponta que mais de 3,3 milhões de crianças adicionais chegariam ao 9º ano sem atraso entre 2031 e 2050. Outras 2,6 milhões chegariam ao ensino médio. Também calcula que 1,3 milhão de jovens teriam oportunidades de emprego nesse período de duas décadas.
"Essas estimativas mostram que as melhorias nas aprendizagens fundamentais poderiam se traduzir em maiores oportunidades de progressão escolar e de inserção no mercado de trabalho. Sua relevância não reside apenas em aumentar o número de estudantes que avançam no sistema educacional, mas também em ampliar as possibilidades de desenvolvimento de capacidades e de participação econômica das novas gerações", diz o estudo.
Além dos potenciais benefícios para a trajetória individual das crianças, o estudo aponta que, quando a melhoria educacional alcança uma proporção importante da população, ela também repercute no crescimento educacional e nas finanças públicas.
No Brasil, a universalização da alfabetização na idade correta está associada a US$ 8,34 trilhões de produto econômico adicional acumulado entre 2031 e 2050. Ao final desse período, o PIB per capita seria 29,3% maior do que no cenário de referência utilizado pelos autores.
Os pesquisadores destacam que se trata de um exercício de simulação baseado em associações empíricas e em pressupostos de modelagem, e não de uma estimativa causal dos efeitos de uma política educacional específica.
O aumento da atividade econômica também teria implicações fiscais. O estudo estima que o Brasil poderia registrar U$ 1,17 trilhão de arrecadação tributária adicional acumulada entre 2031 e 2050. Para chegar a esse valor, os pesquisadores aplicaram à diferença de produto econômico entre os dois cenários a proporção entre arrecadação tributária e PIB observada em cada país.
"Essas estimativas correspondem a um cenário hipotético, e não a previsões nem efeitos comprovados de uma política educacional específica. Nossa análise evidencia que o desafio atual da América Latina não é apenas garantir a escolarização das crianças, mas que elas efetivamente aprendam", afirma Fiorella Santini, analista de dados do instituto.
A melhoria dos indicadores de alfabetização é uma das metas estabelecidas pelo PNE (Plano Nacional de Educação), aprovado no ano passado. A lei do plano prevê que o país garanta ao menos 80% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental até 2030 e prevê a universalização da alfabetização na idade certa até 2035.
O índice nacional, o Indicador Criança Alfabetizada, criado pelo governo Lula (PT), aponta que o país alcançou 66% das crianças alfabetizadas na idade adequada, em 2025.
O número representa o percentual de crianças que alcançaram a nota mínima para considerar que uma criança sabe ler e escrever ao fim do 2º ano do ensino fundamental, que recebe em sua maioria alunos com sete anos.
O percentual divulgado pelo governo representa avanço em relação ao ano anterior, quando o índice ficou em 59,2%. Também é uma superação da meta, que era atingir 64% de alunos da rede pública alfabetizados nessa série em 2025.