A Renner removeu de suas lojas a blusa com a frase 'regret nothing' (não se arrependa de nada) usada por Vitor Hugo Simonin, 19, réu pelo estupro coletivo sofrido por uma jovem de 17 anos, no Rio de Janeiro. Ele vestia a camiseta com a inscrição quando se entregou à polícia no dia 4, como mostrou reportagem da Folha de S. Paulo. A retirada da peça ocorreu no domingo (8).
A frase é um "mindset" de Andrew Tate, influenciador americano-britânico, declaradamente misógino, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores. Tate é citado na série "Adolescência", da Netflix, que aborda a influência nos jovens da chamada machosfera (comunidades online misóginas) e a omissão parental na era digital. Ele também é considerado um mentor red pill, grupo associado à misoginia. Tate nega as acusações, assim como Simonin.
Em nota, a Renner afirmou que retirou a peça após a repercussão negativa e "repudia qualquer forma de violência ou conduta ofensiva e reafirma seu compromisso com seus valores e princípios institucionais".
A empresa disse que o processo criativo da blusa "teve como base conceitual e estética manifestações culturais contemporâneas como poesias e composições musicais, o que demonstra a sua relevância simbólica".
"Na moda jovem urbana, o uso de frases faz parte do repertório utilizado no mercado; a frase "Regret nothing" (não se arrependa de nada) traz uma mensagem de autenticidade e superação, sem qualquer inspiração ou vinculação a movimentos, ideologias ou manifestações de natureza agressiva, de incitação ao ódio ou de condutas ilícitas", acrescentou.
Phellipe Marcel Esteves, professor de linguística e análise de discurso da UFF (Universidade Federal Fluminense), afirma que "tudo o que produz sentido, dos elementos linguísticos ao que vestimos está vinculado a ideologias específicas. Fazemos isso intencionalmente ou não".
"Não é possível afirmar que o acusado esteja 'soprando um apito' para outros estupradores, misóginos red pills agirem, mas, sem dúvidas, ao usar um elemento linguístico, uma paráfrase, uma fórmula que influencia essa subcultura, ele se inscreve na mesma", disse Esteves.
Tate, que é ex-lutador de kickboxing profissional, já declarou diversas vezes que considera errado o ato de se arrepender. Em uma entrevista, após uma luta, ele disse: "nunca me arrependi de coisas boas ou ruins que aconteceram na minha vida".
O corte do vídeo é usado como motivação em sites que promovem a cultura red pill. Nesses perfis, a maioria com discursos que promovem a masculinidade, seguidores ratificam nos comentários o pensamento.
Ao deixar a prisão, no ano passado, e partir para os Estados Unidos, com ajuda do governo americano, Tate disse a um podcast: "Toda essa besteira que fizeram comigo [referindo-se ao período de prisão] tinha um único objetivo. E o objetivo era me fazer dizer desculpas", disse.
Em janeiro deste ano, ao ser filmado com um grupo de influenciadores de extrema direita, Tate fez uma saudação nazista. Após repercussão, ele disse "peço desculpas a todos que se sentiram ofendidos". Em seguida, passou a ser alvo de piadas de outros influenciadores por, supostamente, ter voltado atrás da sua filosofia.
Além das acusações criminais, Tate já comparou mulheres a cães e disse que algumas têm responsabilidade por terem sido estupradas. A reportagem procurou por email seu advogado, Eugen Vidineac, mas ele não respondeu.
Tate também afirma praticar o estoicismo, uma filosofia com origem na Grécia Antiga que promove autocontrole, razão e aceitação do que não pode controlar.
O professor de filosofia e pesquisador sobre radicalização entre jovens na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Renato Levin afirma que os red pills distorceram esse conceito filosófico.
"Há uma deturpação do estoicismo que eu, assim como outros pesquisadores, chamamos de 'estoicismo guerreiro'. Há coisas que não são estoicas, como hipermasculinidade, militarismo, dessensibilização em relação às mulheres. Isso já é uma deturpação", disse. "É falso que ser estoico é ensinar a jovens e homens a não ter empatia ou consideração ética por mulheres."

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